Kombi: a história da velha senhora que carregou o Brasil

Kombi brasileira branca coberta de adesivos, estacionada na rua

Ela foi ambulância, van escolar, carro de entrega, casa sobre rodas de mochileiro e até carrinho de sorvete. A história da Kombi no Brasil é a história de um carro que nunca foi só um carro: era o utilitário que cabia em qualquer vida. Chamada de “velha senhora”, ela ficou mais de meio século nas ruas e só saiu de linha em 2013, vencida por regras de segurança que não combinavam com o desenho dos anos 1950.

Neste artigo, o Farol Redondo conta como a Kombi nasceu na Alemanha, como virou brasileira em São Bernardo do Campo, que versões e motores ela teve e por que a produção terminou. Para entender de onde veio a mecânica, vale ler também a história completa do Fusca no Brasil e a história da fábrica do Fusca.

Kombi brasileira branca coberta de adesivos, estacionada na rua
Uma Kombi brasileira coberta de adesivos: o carro que cada dono fazia do seu jeito. Foto: Wilfredor / CC BY-SA 4.0

Da Transporter alemã à ideia no guardanapo

A Kombi nasceu na Alemanha, em 1950, com o nome de Transporter. Segundo a AUTOO, a ideia foi do executivo holandês Ben Pon, que nos anos 1940 imaginou juntar a mecânica do Fusca com uma carroceria de utilitário. Dizem as más línguas que o primeiro rabisco foi feito num guardanapo, mas essa parte é mais lenda que documento.

O nome brasileiro vem da palavra alemã Kombinationsfahrzeug, algo como “veículo combinado”: um carro que juntava espaço para carga e espaço para passageiros. A receita era a do Fusca, com motor traseiro refrigerado a ar, e isso explica muita coisa da personalidade dela: o motor ficava lá atrás, sem radiador, e a cabine ficava praticamente em cima do eixo dianteiro.

Volkswagen Kombi T1 de 1956, primeira geração com para-brisa dividido
Uma Kombi T1 de 1956, a primeira geração, de para-brisa dividido. Foto: Sicnag / CC BY 2.0

Os primeiros anos no Brasil

As Kombis chegaram por aqui no começo dos anos 1950, montadas com peças importadas. As fontes divergem sobre o ano exato: a Revista Carro e a AUTOO falam em 1953, num galpão no bairro do Ipiranga, em São Paulo; a Motor Show cita 1951, com a Brasmotor importando e montando os carros. O que ninguém discute é a data seguinte.

Em 2 de setembro de 1957, a primeira Kombi nacional saiu da linha da fábrica Anchieta, em São Bernardo do Campo, em São Paulo. Foi o primeiro veículo produzido pela Volkswagen no Brasil, antes mesmo do Fusca, que só começaria a ser fabricado aqui em 1959. Por isso 2 de setembro virou o Dia Nacional da Kombi.

No início, cerca de metade dos componentes era nacional; em 1961, segundo a Revista Carro, o índice já chegava a 95%. O motor era o boxer de quatro cilindros opostos, refrigerado a ar, de cerca de 1.200 cm³ e 30 cv. A Motor Show dá velocidade máxima de 100 km/h e 25 segundos para chegar aos 100 km/h, o que mostra o tipo de carro que era: feito para trabalhar, não para correr. Menos de quatro anos depois do lançamento, a linha ganhou a versão de seis portas, nas opções Luxo e Standard, e a caixa sincronizada.

Volkswagen Kombi 1961 amarela e branca decorada com girassóis
Uma Kombi de 1961, da fase em que o índice de nacionalização já passava dos 90%. Foto: GPS 56 / CC BY 2.0

Picape, cabine dupla e a Kombi para tudo

Com o tempo, a família cresceu. A Motor Show lembra as versões de passageiros, furgão e picape de cabine simples ou dupla, além das que os donos adaptavam por conta própria. Segundo a Revista Carro, a picape chegou em 1967, com motor de 1.500 cm³ e 52 cv brutos e sistema elétrico de 12 volts. A cabine dupla veio em 1981.

Volkswagen Kombi 1966 vermelha e branca com teto elevado
Uma Kombi de 1966. Foto: Bernard Spragg / CC0

E havia as Kombis das histórias de rua. A AUTOO lembra que ela serviu de carrocinha de picolé, ambulância improvisada, van de banda de rock e casa sobre rodas de mochileiro. Nos anos 1970, ainda segundo a AUTOO, a Kombi brasileira rodava em mais de cem países, principalmente Argentina, Chile, México, Venezuela e Nigéria.

1975: nova cara e mais motor

Em 1975 a Kombi foi reestilizada e ganhou o motor de 1.600 cm³ e 58 cv brutos. Em 1978 veio uma versão com dupla carburação e 65 cv brutos. A evolução seguiu pelos combustíveis da época: em 1981, uma versão com motor 1.6 a diesel, e em 1982 outra a álcool, de 56 cv, segundo a Revista Carro.

Volkswagen Kombi T2 amarela e branca, segunda geração
A Kombi de segunda geração, com o desenho que marcaria as ruas por décadas. Foto: Oleg Yunakov / CC BY-SA 4.0

Catalisador, teto alto e porta de correr

Em 1992, a Kombi se tornou o primeiro utilitário nacional com catalisador. No mesmo ano ganhou servo-freio a vácuo, discos na dianteira e válvulas moduladoras de pressão nas rodas traseiras. Em 1997 veio a mudança mais visível das últimas décadas: a Kombi Carat, com teto mais alto, que depois passou a valer para toda a linha, porta lateral corrediça e sem a parede divisória atrás do banco dianteiro. A AUTOO também aponta 1997 como a “nova geração”, com mais espaço de carga.

Kombi rosa e branca rodando numa avenida brasileira
A Kombi das últimas décadas, de frente reta e teto alto, ainda comum nas ruas. Foto: Wilfredor / CC BY-SA 4.0

O fim do motor a ar

O motor boxer refrigerado a ar acompanhou a Kombi por quase meio século. No fim de 2005, segundo a Revista Carro, ele foi substituído pelo 1.4 Total Flex da família EA111, refrigerado a água, que aceita gasolina e etanol. Era uma mudança grande para um carro que sempre dependeu da fama de ser simples de consertar.

2013: a despedida

Em 2013, a Kombi saiu de linha. A Motor Show explica que ela não conseguiu atender à nova legislação brasileira, que passou a exigir freios ABS e duplo airbag dianteiro; a AUTOO resume a mudança como o fim do motor traseiro diante do airbag obrigatório. As fontes divergem sobre o momento exato: a Revista Carro fala em agosto de 2013, a Motor Show em final de 2013. A Volkswagen falou em cerca de 1,5 milhão de unidades produzidas em São Bernardo do Campo desde 1957, e a Motor Show lembra que, ao sair, ela era o carro mais antigo em produção no país.

Kombi Last Edition 2013 azul clara e branca, série de despedida
A Kombi Last Edition, a série de despedida de 2013. Foto: RRLevy / CC BY-SA 3.0

Para a despedida, a Volkswagen lançou a Last Edition, uma série limitada em azul claro e branco, no estilo bicolor, com interior exclusivo. A Revista Carro fala em 1.200 unidades; algumas publicações internacionais da época citaram 600 no anúncio inicial, então vale tratar o número com cuidado.

Frente da Kombi Last Edition, azul clara e branca, a última Kombi fabricada
A Last Edition de frente. Foto: Mr Yukio / CC BY-SA 4.0

A Kombi hoje

Mesmo fora de linha, a Kombi continua nas ruas, nos encontros de antigos e nas redes sociais. A AUTOO informa que um exemplar bem conservado chega fácil a R$ 200 mil. A Volkswagen também criou o Dia Internacional da Kombi, em 2 de junho, a partir de 2023. E o apelido ficou: a “velha senhora” foi chamada de “avó brasileira” na comparação com o ID.Buzz elétrico, o “neto” da família.

Perguntas frequentes sobre a Kombi

Quando a Kombi começou a ser fabricada no Brasil?

Em 2 de setembro de 1957, na fábrica Anchieta, em São Bernardo do Campo. Antes disso, desde o começo dos anos 1950, ela era montada aqui com peças importadas.

Por que a Kombi deixou de ser fabricada?

Porque não atendia à nova legislação de segurança, que passou a exigir ABS e duplo airbag dianteiro em todos os carros vendidos no país.

A Kombi sempre teve motor a ar?

Quase sempre: o boxer refrigerado a ar ficou até o fim de 2005, quando foi trocado pelo 1.4 flex refrigerado a água.

E você, já viajou de Kombi? Conta pra gente nos comentários do nosso canal no YouTube, onde a história sai também em vídeo.

Fontes consultadas

As fotos deste artigo têm licença livre (Creative Commons ou CC0) e vieram do Wikimedia Commons; autores e licenças estão em cada legenda.

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João Paulo Rausis Pereira

Apaixonado por carros antigos desde sempre, criei o Farol Redondo pra compartilhar histórias, curiosidades e tudo que envolve o universo do antigomobilismo. Aqui, cada carro tem alma — e cada post é um jeito de manter essa paixão rodando.

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