Ela foi ambulância, van escolar, carro de entrega, casa sobre rodas de mochileiro e até carrinho de sorvete. A história da Kombi no Brasil é a história de um carro que nunca foi só um carro: era o utilitário que cabia em qualquer vida. Chamada de “velha senhora”, ela ficou mais de meio século nas ruas e só saiu de linha em 2013, vencida por regras de segurança que não combinavam com o desenho dos anos 1950.
Neste artigo, o Farol Redondo conta como a Kombi nasceu na Alemanha, como virou brasileira em São Bernardo do Campo, que versões e motores ela teve e por que a produção terminou. Para entender de onde veio a mecânica, vale ler também a história completa do Fusca no Brasil e a história da fábrica do Fusca.

Da Transporter alemã à ideia no guardanapo
A Kombi nasceu na Alemanha, em 1950, com o nome de Transporter. Segundo a AUTOO, a ideia foi do executivo holandês Ben Pon, que nos anos 1940 imaginou juntar a mecânica do Fusca com uma carroceria de utilitário. Dizem as más línguas que o primeiro rabisco foi feito num guardanapo, mas essa parte é mais lenda que documento.
O nome brasileiro vem da palavra alemã Kombinationsfahrzeug, algo como “veículo combinado”: um carro que juntava espaço para carga e espaço para passageiros. A receita era a do Fusca, com motor traseiro refrigerado a ar, e isso explica muita coisa da personalidade dela: o motor ficava lá atrás, sem radiador, e a cabine ficava praticamente em cima do eixo dianteiro.

Os primeiros anos no Brasil
As Kombis chegaram por aqui no começo dos anos 1950, montadas com peças importadas. As fontes divergem sobre o ano exato: a Revista Carro e a AUTOO falam em 1953, num galpão no bairro do Ipiranga, em São Paulo; a Motor Show cita 1951, com a Brasmotor importando e montando os carros. O que ninguém discute é a data seguinte.
Em 2 de setembro de 1957, a primeira Kombi nacional saiu da linha da fábrica Anchieta, em São Bernardo do Campo, em São Paulo. Foi o primeiro veículo produzido pela Volkswagen no Brasil, antes mesmo do Fusca, que só começaria a ser fabricado aqui em 1959. Por isso 2 de setembro virou o Dia Nacional da Kombi.
No início, cerca de metade dos componentes era nacional; em 1961, segundo a Revista Carro, o índice já chegava a 95%. O motor era o boxer de quatro cilindros opostos, refrigerado a ar, de cerca de 1.200 cm³ e 30 cv. A Motor Show dá velocidade máxima de 100 km/h e 25 segundos para chegar aos 100 km/h, o que mostra o tipo de carro que era: feito para trabalhar, não para correr. Menos de quatro anos depois do lançamento, a linha ganhou a versão de seis portas, nas opções Luxo e Standard, e a caixa sincronizada.

Picape, cabine dupla e a Kombi para tudo
Com o tempo, a família cresceu. A Motor Show lembra as versões de passageiros, furgão e picape de cabine simples ou dupla, além das que os donos adaptavam por conta própria. Segundo a Revista Carro, a picape chegou em 1967, com motor de 1.500 cm³ e 52 cv brutos e sistema elétrico de 12 volts. A cabine dupla veio em 1981.

E havia as Kombis das histórias de rua. A AUTOO lembra que ela serviu de carrocinha de picolé, ambulância improvisada, van de banda de rock e casa sobre rodas de mochileiro. Nos anos 1970, ainda segundo a AUTOO, a Kombi brasileira rodava em mais de cem países, principalmente Argentina, Chile, México, Venezuela e Nigéria.
1975: nova cara e mais motor
Em 1975 a Kombi foi reestilizada e ganhou o motor de 1.600 cm³ e 58 cv brutos. Em 1978 veio uma versão com dupla carburação e 65 cv brutos. A evolução seguiu pelos combustíveis da época: em 1981, uma versão com motor 1.6 a diesel, e em 1982 outra a álcool, de 56 cv, segundo a Revista Carro.

Catalisador, teto alto e porta de correr
Em 1992, a Kombi se tornou o primeiro utilitário nacional com catalisador. No mesmo ano ganhou servo-freio a vácuo, discos na dianteira e válvulas moduladoras de pressão nas rodas traseiras. Em 1997 veio a mudança mais visível das últimas décadas: a Kombi Carat, com teto mais alto, que depois passou a valer para toda a linha, porta lateral corrediça e sem a parede divisória atrás do banco dianteiro. A AUTOO também aponta 1997 como a “nova geração”, com mais espaço de carga.

O fim do motor a ar
O motor boxer refrigerado a ar acompanhou a Kombi por quase meio século. No fim de 2005, segundo a Revista Carro, ele foi substituído pelo 1.4 Total Flex da família EA111, refrigerado a água, que aceita gasolina e etanol. Era uma mudança grande para um carro que sempre dependeu da fama de ser simples de consertar.
2013: a despedida
Em 2013, a Kombi saiu de linha. A Motor Show explica que ela não conseguiu atender à nova legislação brasileira, que passou a exigir freios ABS e duplo airbag dianteiro; a AUTOO resume a mudança como o fim do motor traseiro diante do airbag obrigatório. As fontes divergem sobre o momento exato: a Revista Carro fala em agosto de 2013, a Motor Show em final de 2013. A Volkswagen falou em cerca de 1,5 milhão de unidades produzidas em São Bernardo do Campo desde 1957, e a Motor Show lembra que, ao sair, ela era o carro mais antigo em produção no país.

Para a despedida, a Volkswagen lançou a Last Edition, uma série limitada em azul claro e branco, no estilo bicolor, com interior exclusivo. A Revista Carro fala em 1.200 unidades; algumas publicações internacionais da época citaram 600 no anúncio inicial, então vale tratar o número com cuidado.

A Kombi hoje
Mesmo fora de linha, a Kombi continua nas ruas, nos encontros de antigos e nas redes sociais. A AUTOO informa que um exemplar bem conservado chega fácil a R$ 200 mil. A Volkswagen também criou o Dia Internacional da Kombi, em 2 de junho, a partir de 2023. E o apelido ficou: a “velha senhora” foi chamada de “avó brasileira” na comparação com o ID.Buzz elétrico, o “neto” da família.
Perguntas frequentes sobre a Kombi
Quando a Kombi começou a ser fabricada no Brasil?
Em 2 de setembro de 1957, na fábrica Anchieta, em São Bernardo do Campo. Antes disso, desde o começo dos anos 1950, ela era montada aqui com peças importadas.
Por que a Kombi deixou de ser fabricada?
Porque não atendia à nova legislação de segurança, que passou a exigir ABS e duplo airbag dianteiro em todos os carros vendidos no país.
A Kombi sempre teve motor a ar?
Quase sempre: o boxer refrigerado a ar ficou até o fim de 2005, quando foi trocado pelo 1.4 flex refrigerado a água.
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Fontes consultadas
- Revista Carro: Hoje é Dia Nacional da Kombi
- AUTOO: Kombi faz 69 anos
- Motor Show: 2 de setembro, o dia nacional da VW Kombi
- IndustryWeek: Volkswagen Brazil to End Production of Kombi Model
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