Opala: a história do primeiro Chevrolet de passeio feito no Brasil

Chevrolet Opala SS cupê vermelho com faixas pretas

Existe um som que quase todo brasileiro apaixonado por carro antigo reconhece de olhos fechados: o ronco grave de um seis cilindros em linha acelerando numa avenida. Para muita gente, ele tem nome e sobrenome. Opala. Foi o carro do pai orgulhoso, do executivo, do taxista, do policial e, claro, do garoto que sonhava com as faixas pretas do SS.

Neste artigo, o Farol Redondo conta a trajetória do Chevrolet Opala, do lançamento no Salão do Automóvel de 1968 até a despedida em 1992, passando pelos motores, pelas carrocerias, pelos apelidos de versão e por algumas curiosidades que costumam surpreender até quem teve um.

1968: a Chevrolet finalmente tem um carro de passeio

Até 1968, a Chevrolet vendia no Brasil apenas utilitários: caminhões, camionetes e picapes. Faltava o carro de passeio que a marca já tinha em outros países. A resposta foi apresentada ao público no Salão do Automóvel daquele ano, e entrou para a história como o primeiro automóvel de passeio da Chevrolet no mercado brasileiro.

Durante o desenvolvimento, o projeto era identificado internamente como 676. Em vez de partir do zero, a GM decidiu basear o novo carro no Opel Rekord, modelo alemão que na Europa existia em versões sedã, cupê e perua. A base europeia foi adaptada para as ruas e estradas do Brasil, e o resultado ganhou personalidade própria: grade de linhas horizontais cromadas, faróis circulares embutidos, uma bonita linha de cintura e um discreto sobressalto nas quatro quinas da carroceria, que muita gente considera o toque de mestre do desenho.

Chevrolet Opala sedã vermelho 1971 com motor 3800 e teto de vinil preto
Um Opala sedã de 1971 com motor 3800: o desenho original, de linhas limpas, fez sucesso logo de cara. Foto: Renzo Maia / CC BY 3.0, via Wikimedia Commons

O primeiro Opala: sedã, quatro ou seis cilindros

No lançamento, o Opala só tinha carroceria sedã de quatro portas, nas versões Standard e Luxo. Por dentro, bancos dianteiros inteiriços e alavanca de câmbio na coluna de direção, o que permitia levar três pessoas na frente. A tração era traseira, o câmbio tinha três marchas e os freios eram a tambor nas quatro rodas.

O comprador podia escolher entre duas motorizações: um quatro cilindros de 2.509 cm³ e 80 cv, ou um seis cilindros em linha de 3.764 cm³ e 125 cv. A diferença de comportamento entre os dois era grande, e foi o seis cilindros que ajudou a construir a fama do carro.

Chevrolet Opala Deluxe 4100 1974 sedã de quatro portas
Opala Deluxe 4100 de 1974: o sedã de quatro portas foi a única carroceria nos primeiros anos. Foto: papurojugarpool / CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons

A alma do Opala: o seis cilindros

Com o passar dos anos, o seis cilindros cresceu. O 3.8 foi retrabalhado e passou a 4.097 cm³, o famoso 4.1, que acabou substituindo de vez o 3.8 por volta de 1971. A fama de motor valente, robusto e fácil de preparar atravessou gerações de mecânicos e de preparadores, e é uma das razões de o Opala continuar tão querido em encontros, arrancadas e garagens de colecionadores.

Motor GM 250 de seis cilindros em linha com três carburadores de corpo simples sob o capô de um Opala
O seis cilindros em linha da família GM 250, com carburação múltipla, sob o capô de um Opala. Foto: Hector Balke Nodari / CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons

1970: chega o SS

Em 1970 nasceu a versão que virou lenda. O Opala SS trazia faixas pretas no capô, nas laterais e no painel traseiro, rodas esportivas, o motor 4.1 com 140 cv e câmbio de quatro marchas com alavanca no assoalho. Como a alavanca saía da coluna e ia para o chão, os bancos dianteiros passaram a ser individuais, e é daí que vem a sigla: SS, de Separate Seats, ou bancos separados.

Muita gente jura que SS significa Super Sport, e o povo adotou essa leitura com gosto. Nenhum problema nisso: a lenda pegou. Um detalhe curioso é que, naquela época, o esportivo ainda era um sedã de quatro portas, algo que hoje soa bizarro para quem associa o SS ao cupê.

Chevrolet Opala SS 1978 prata com faixas pretas estacionado na grama
Opala SS 1978, com as faixas pretas que o tornaram inconfundível. Foto: Niemann333 / CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons

1971: o cupê sem coluna central

Em 1971, a família cresceu com a chegada do cupê de duas portas, mais próximo de um fastback. O que chamava atenção era a ausência da coluna central: com os vidros abaixados, o carro ficava com jeitão de conversível. Aos poucos, todas as versões de acabamento do sedã passaram a ser oferecidas também no cupê, e o SS ficou restrito a essa carroceria.

Chevrolet Opala cupê marrom com a frente reestilizada, sem coluna central
O cupê do Opala, já com a frente reestilizada. Foto: Prefeitura Municipal de Itanhaém / CC BY 2.0, via Wikimedia Commons

Mudando sem parar: 1973 e 1974

O Opala nunca ficou parado. Em 1973, a frente ganhou nova grade, as setas foram para as quinas e as luzes de ré passaram para junto das lanternas. Os modelos de seis cilindros receberam freios a disco na dianteira, e entre os opcionais surgiram bancos individuais e ar-condicionado. No ano seguinte, o quatro cilindros foi retrabalhado e passou a entregar 94 cv; o SS também ganhou a opção desse motor, com carburador de corpo duplo e 98 cv. Também em 1974, o câmbio automático de três marchas entrou na lista de opcionais.

1975: Caravan e Comodoro

Em 1975 veio a primeira reestilização mais profunda: nova grade, novo para-choque, pequenas mudanças nos faróis e, atrás, dois pares de lanternas circulares. A grande novidade foi a perua Caravan, oferecida com motores de quatro ou seis cilindros. Aqui vai uma curiosidade que intriga muita gente: a Caravan nunca teve uma versão de quatro portas, o que teria deixado a perua bem mais prática para a família.

A versão de luxo passou a se chamar Comodoro e, naquele momento, só estava disponível com o motor de seis cilindros. A partir de 1977, o Comodoro ganhou também a opção do quatro cilindros e, em 1978, a Caravan passou a ser oferecida nas versões SS e Comodoro.

Perua Chevrolet Opala Caravan 1982 azul estacionada na rua
Opala Caravan 1982: a perua nunca teve versão de quatro portas. Foto: papurojugarpool / CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons

1976: o motor 250-S

Para quem queria desempenho de verdade, a GM passou a oferecer em 1976 o motor 250-S, com 153 cv, capaz de levar o Opala perto dos 200 km/h. O cupê SS daquele ano é lembrado como uma das melhores fases do modelo, e o 250-S continuou na lista de opcionais nos anos seguintes.

1980: linhas retas e o Diplomata

Em 1980, o Opala passou por uma nova reestilização. As linhas ficaram retas, a grade mais baixa, o conjunto óptico retangular e o carro mais largo. No topo da linha entrou o Diplomata, com ar-condicionado, direção hidráulica, toca-fitas e motor de seis cilindros de série. Teto de vinil, pneus radiais, câmbio automático e o motor 250-S eram opcionais.

Aquele ano também marcou o último do SS e a chegada do motor a álcool, primeiro no quatro cilindros. Em 1983, esse motor passou a contar com câmbio de cinco marchas, e em 1984 o seis cilindros finalmente ganhou a opção movida a etanol. Em 1985 vieram novas mudanças estéticas e a Caravan ganhou a versão requintada Diplomata.

Chevrolet Opala Diplomata 1981 bege com a nova frente de linhas retas
A fase de linhas retas, inaugurada em 1980: o topo de linha passou a se chamar Diplomata. Foto: order_242 / CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons

Vinte anos e a despedida

Em 1988, no aniversário de 20 anos, o Opala ganhou nova grade, faróis trapezoidais e a opção de câmbio automático de quatro marchas. Em 1989, o mercado se despediu da carroceria cupê. Em 1991 veio a última reestilização, com nova grade, novos para-choques, rodas aro 15 e a retirada dos quebra-ventos.

Em 1992, o sedã e a perua finalmente saíram de linha. Ao todo, foram produzidas 998.444 unidades do Opala, quase um milhão de carros. O lugar dele foi ocupado pelo Chevrolet Omega, que seguiu a tradição de um sedã grande de seis cilindros no portfólio da marca.

Chevrolet Opala Diplomata 4.1 S preto, última geração do sedã
Opala Diplomata 4.1 S da fase final, com o visual que o carro tinha ao sair de linha. Foto: Diego Torres Silvestre / CC BY 2.0, via Wikimedia Commons
Perua Chevrolet Opala Caravan da última fase, cinza
Caravan da última fase: a perua saiu de linha junto com o sedã, em 1992. Foto: Bruno Kussler Marques / CC BY 2.0, via Wikimedia Commons

Por que o Opala continua tão querido

Mais de trinta anos depois do fim da produção, o Opala segue como um dos clássicos mais cobiçados do país. Um bom exemplar, sobretudo das versões esportivas e de topo, pode chegar a valer o mesmo que um carro zero-quilômetro. A explicação passa pela mecânica robusta, pelo ronco do seis cilindros, pela farta oferta de peças e por uma comunidade de apaixonados que mantém o carro rodando em encontros por todo o Brasil.

Detalhe da grade, do farol redondo e do emblema Chevrolet de um Opala preto
Grade, farol redondo e o emblema Chevrolet: detalhes que o apaixonado reconhece de longe. Foto: Patricio Moncada / CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons

O Opala não foi o primeiro carro nacional, nem o mais barato. Foi o Chevrolet que ensinou o brasileiro a gostar de seis cilindros, de tração traseira e de um sedã com presença. E é por isso que, quando um deles passa roncando na rua, a gente ainda vira a cabeça para olhar.

E você, já teve um Opala, ou sonha em ter um? Conta pra gente nos comentários do nosso canal no YouTube qual é a sua versão favorita: o SS, o Comodoro, o Diplomata ou a Caravan.

Fontes consultadas

Todas as fotos deste artigo têm licença livre (Creative Commons) e foram obtidas no Wikimedia Commons; os autores e licenças estão indicados em cada legenda. Foto de destaque (Opala SS): Niemann333 / CC BY-SA 4.0.

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João Paulo Rausis Pereira

Apaixonado por carros antigos desde sempre, criei o Farol Redondo pra compartilhar histórias, curiosidades e tudo que envolve o universo do antigomobilismo. Aqui, cada carro tem alma — e cada post é um jeito de manter essa paixão rodando.

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