No fim dos anos 1960, quem passava por um Corcel GT parado na rua dificilmente seguia em frente sem virar o pescoço. As faixas pretas atravessando o capô, os faróis de milha no para-choque e aquele ronco um pouco mais encorpado diziam que aquele não era o Corcel comportado da família. Era o mesmo carro econômico e confiável que a Ford tinha acabado de lançar, mas com roupa de corrida e um motor com mais fôlego.
Neste artigo, o Farol Redondo conta a história do Corcel GT: de onde ele veio, o que tinha de diferente, como evoluiu até virar GT XP e o que aconteceu com ele quando chegou o Corcel II.
Um Ford com coração de Renault
Para entender o GT, é preciso voltar um pouco. O Corcel nasceu de um projeto da Willys-Overland do Brasil chamado Projeto M, de “médio”, desenvolvido em parceria com a Renault e aparentado do Renault 12 francês. Quando a Ford comprou a Willys, em 1967, herdou o projeto praticamente pronto. A carroceria foi desenhada aqui, pelo departamento de estilo da Willys, enquanto a mecânica vinha da matriz francesa: motor de quatro cilindros de 1.289 cm³ derivado do Renault Cléon, tração dianteira e suspensão independente nas quatro rodas.
O sedã de quatro portas foi apresentado no Salão do Automóvel de 1968 e virou sucesso imediato. No começo de 1969 veio o cupê de duas portas, de linhas mais leves, e no mesmo ano o Corcel ganhou o título de Carro do Ano da revista Autoesporte. Faltava só uma coisa para completar a família: uma versão que agradasse aos jovens que sonhavam com carros esportivos, mas não tinham dinheiro para um importado.

1969: nasce o Corcel GT
O GT chegou ainda em 1969, sempre com carroceria cupê. Visualmente, era impossível confundir: faixas pretas no capô e nas laterais, teto revestido de vinil, rodas de aço exclusivas, faróis auxiliares redondos à frente da grade e o capô pintado de preto fosco com uma falsa tomada de ar. Por dentro, o motorista ganhava volante esportivo e instrumentos extras, com conta-giros, amperímetro e manômetro de óleo, coisa rara num carro nacional daquele porte.
Debaixo do capô, o motor continuava sendo o 1.3, mas mexido. A Ford trocou o carburador simples por um Solex de corpo duplo, redimensionou coletores e válvulas, rebaixou o cabeçote e adotou um novo comando. A potência bruta subiu de 68 para 80 cv, e o torque também cresceu um pouco. A velocidade máxima ficava na casa dos 140 km/h, alguns quilômetros por hora acima do Corcel comum. Não era um foguete, e ninguém esperava que fosse: o charme estava em ter um carro de cara esportiva, freio a disco na dianteira e mecânica tão econômica quanto a do carro da família.

GT XP: mais motor e mais estilo
No início dos anos 1970, o GT recebeu a sua evolução mais famosa. Segundo a enciclopédia Lexicar Brasil, foi em maio de 1971 que ele passou a se chamar GT XP; outras publicações situam a novidade em 1972. A grande mudança estava no motor: o diâmetro dos cilindros aumentou, a cilindrada foi para 1.372 cm³ e, mantido o carburador de corpo duplo, a potência bruta chegou a 85 cv. Com isso, o Corcel esportivo passou a fazer de 0 a 100 km/h em cerca de 17 segundos e a beirar os 145 km/h de máxima.
O visual também foi revisto. O capô preto ganhou uma entrada de ar, os faróis de milha passaram para dentro da grade, as faixas pretas correram a lateral inteira do carro e os instrumentos adicionais foram para um console central, ao alcance dos olhos do motorista. O significado de XP rende discussão até hoje entre os fãs: há quem diga “extra performance” e há quem prefira “extra power”. Seja qual for, o recado era o mesmo.

Em 1971 a Ford chegou a mostrar ainda o Corcel Cobra, um conceito baseado no GT que nunca entrou em produção. Ficou como curiosidade de salão, mas mostra como a marca enxergava o potencial esportivo do seu cupê médio.
1973: cara nova e motor 1.4 para todos
Para a linha 1973, o Corcel inteiro passou por uma reestilização. A frente ficou mais quadrada e musculosa, com grade nova e os faróis emoldurados de outra forma, e as lanternas traseiras cresceram e passaram a incorporar a luz de ré. O motor 1.4, até então privilégio do GT, foi estendido a toda a linha, mas com carburador simples e potência menor. O carburador de corpo duplo continuou sendo exclusividade do esportivo.
No GT dessa fase, os faróis de milha ficaram menores e retangulares, encaixados na grade, e algumas unidades exibiam o capô inteiro pintado de preto fosco. O conjunto agradou: naquele ano o Corcel voltou a ser eleito Carro do Ano pela Autoesporte, a segunda vez em cinco anos.

Lado a lado com um Corcel comum do mesmo ano, dá para perceber como a Ford fazia o GT parecer outro carro usando quase só pintura, faixas e acessórios. A carroceria era a mesma do cupê Luxo, por exemplo, que tinha frisos cromados e um ar bem mais sóbrio.

Nas pistas e nas ruas
Leve, de tração dianteira e com boa estabilidade, o Corcel GT também apareceu em competições de carros de turismo no Brasil, em circuitos como Tarumã e Interlagos. Não tinha fôlego para acompanhar os grandes motores de seis e oito cilindros da época, como os do Opala e do Maverick, mas brigava bem com os carros da sua faixa e ajudou a construir a imagem esportiva da linha.
Nas ruas, o papel dele era outro. O GT era o carro do rapaz que queria impressionar na porta do colégio, do recém-formado que trocava o carro do pai por algo com mais personalidade e do motorista que gostava de esticar as marchas na estrada. Ele chegou antes de concorrentes como o Super-Fuscão 1600S, o famoso Bizorrão da Volkswagen, e ajudou a abrir caminho para a onda de esportivos de motor pequeno que marcou os anos 1970 no Brasil.

O GT continua no Corcel II
Em novembro de 1977 chegou o Corcel II, com carroceria totalmente nova, linhas retas e faróis retangulares. O sedã de quatro portas saiu de cena e a linha passou a ter só o cupê e a perua Belina. O nome GT sobreviveu, aplicado apenas ao cupê, ao lado das versões básica, L e LDO. Em 1979 o GT ganhou câmbio de cinco marchas; na linha 1980 vieram voltímetro e um friso vermelho na lateral. No mesmo período apareceu o motor 1.6, com carburador de corpo duplo, que deu ao Corcel mais disposição.
Mas, para os colecionadores, o Corcel GT “de verdade” continua sendo o da primeira geração, com faixas, capô fosco e faróis auxiliares. A Ford manteve o Corcel em produção até julho de 1986, depois de mais de um milhão de unidades somando todas as versões, e os GTs originais da primeira fase hoje estão entre os Corcéis mais procurados.

Dicas para quem quer um Corcel GT
Por ser uma versão de visual marcante e mecânica parecida com a dos Corcéis comuns, o GT é um carro que exige atenção na hora da compra. Muitos Corcéis simples ganharam faixas e emblemas ao longo dos anos. Antes de fechar negócio, vale conferir a documentação, procurar os detalhes de painel e console da época, checar o carburador de corpo duplo e, se possível, consultar um clube do modelo ou um especialista em originalidade. Um GT legítimo e bem restaurado vale bem mais do que uma imitação, por mais bonita que ela seja.
O Corcel GT não era o carro mais rápido do Brasil, nem pretendia ser. Foi o esportivo possível para muita gente, com a confiabilidade de um carro de família e a pose de um cupê de corrida. E é exatamente essa mistura que faz qualquer GT com faixas pretas parar o trânsito num encontro de antigos até hoje.
Ficha técnica do Corcel GT
- Lançamento: 1969, só com carroceria cupê de duas portas
- Motor do GT: quatro cilindros em linha, 1.289 cm³, carburador Solex de corpo duplo, 80 cv brutos
- Motor do GT XP: 1.372 cm³, carburador de corpo duplo, 85 cv brutos
- Tração: dianteira, com freio a disco nas rodas da frente
- Velocidade máxima: cerca de 141 km/h (GT) e 145 km/h (GT XP)
- Aceleração de 0 a 100 km/h: cerca de 17 segundos (GT XP)
- Produção: as fontes não trazem o número de GTs; somando todas as versões, o Corcel passou de 1 milhão de unidades entre 1968 e 1986
Perguntas frequentes sobre o Corcel GT
Quando foi lançado o Corcel GT?
O Corcel GT chegou em 1969, poucos meses depois do cupê, como a versão esportiva da linha. Em 1971 ele foi renovado e virou GT XP, com motor maior.
Qual era a potência do Corcel GT?
O primeiro GT tinha 80 cv brutos, contra 68 cv do Corcel comum. O GT XP, com motor de 1.372 cm³, chegou a 85 cv brutos.
O que significa XP no Corcel GT XP?
As fontes não concordam. A versão mais citada é “extra performance”, mas também aparece “extra power”. Em qualquer caso, a sigla indicava o motor mais forte da linha.
Existiu Corcel II GT?
Sim. Quando o Corcel II foi lançado, em novembro de 1977, o GT continuou na linha, só com carroceria cupê. Em 1979 ele ganhou câmbio de cinco marchas.
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Fontes consultadas
- Lexicar Brasil: Ford
- AutoPapo: a história do Ford Corcel
- Vrum: o Renault da Ford-Willys
- Revista Carro: Corcel, a virada da Ford
- Autoentusiastas: o motor Ford de projeto Renault
- Wikipedia: Ford Corcel
As fotos deste artigo vêm do Wikimedia Commons, com licença livre, e o anúncio do GT da primeira fase e a foto do Corcel II GT são materiais de divulgação da época reproduzidos do Flickr; os autores e fontes estão indicados em cada legenda. A foto de 1969 pertence ao acervo do Arquivo Público do Estado de São Paulo. Foto de destaque (Corcel GT 1974): Renzo Maia / CC BY 3.0.


