Passat Iraque: o Passat feito no Brasil e pago em petróleo

Volkswagen Passat LSE bege de quatro portas, o Passat Iraque de 1986, andando numa estrada

O Passat Iraque é uma das histórias mais curiosas do antigomobilismo brasileiro: um Passat de quatro portas, bem equipado, fabricado no Brasil para ser exportado ao Iraque dos anos 1980 e pago com petróleo. Como a Volkswagen vendeu cerca de 170 mil carros desse jeito, e o que o Passat Iraque tinha de diferente dos Passat vendidos aqui?

Volkswagen Passat LSE bege de quatro portas, o Passat Iraque de 1986, andando numa estrada
Um Passat LSE de quatro portas, identificado como “Iraque” e de 1986, em movimento. Foto: André Grigorevski / CC BY 4.0

Como o Passat foi parar no Iraque

O Passat tipo exportação nasceu de um acordo entre a Volkswagen, a Petrobras e o governo do Iraque. Na prática, o carro era pago em petróleo: a montadora repassava o óleo para a Petrobras e recebia da estatal o dinheiro vivo. Foi um dos primeiros grandes sucessos de exportação da Volkswagen do Brasil.

As fontes concordam em quase tudo: a Volkswagen enviou o Passat ao Iraque de 1983 a 1988, num total de cerca de 170 mil unidades, um recorde de exportação para a época. A partir de 1986, porém, os embarques diminuíram e a montadora acabou colocando o excedente de produção à venda no Brasil. O Autoentusiastas lembra dessas sobras de exportação circulando por aqui, a maioria entre 1986 e 1987.

O que o Passat Iraque tinha de diferente

Para o gosto e para o clima do Iraque, o Passat saía de fábrica com uma receita própria. A mecânica era mais simples do que a dos carros vendidos no Brasil, e o conforto era maior. Veja os detalhes que a imprensa da época registrou:

  • Motor: o antigo 1.6 MD-270, a gasolina, em vez do moderno AP das versões brasileiras;
  • Câmbio: de quatro marchas, tudo para baratear a manutenção;
  • Radiador: de cobre, no lugar do de alumínio, para ajudar a dissipar o calor;
  • Carroceria: só de quatro portas;
  • Painel: completo, como o do Santana CD, com voltímetro e medidor de pressão do óleo;
  • Conforto: ar-condicionado, item fundamental no calor do deserto, e bancos Recaro, com ajuste de altura no do motorista.

Vermelho, branco e cinza com veludo vinho

As cores também eram escolhidas a dedo. Os carros pintados de vermelho, branco ou cinza tinham forração em veludo vinho, enquanto o azul vinha com forração cinza. O Autoentusiastas, que se lembra bem desses Passat circulando no Brasil, conta que poucos eram azuis e a maioria era vermelha, e muitos vermelhos até por dentro, embora alguns poucos tivessem o interior branco.

Volkswagen Passat Village vermelho de quatro portas, modelo brasileiro de 1986 a 1988, num encontro de carros antigos
Para comparar: um Passat Village de quatro portas, modelo nacional de 1986 a 1988, num encontro de carros antigos em Itanhaém (SP). Não é um carro de exportação. Foto: Prefeitura Municipal de Itanhaém / CC BY 2.0

O “Passat Brazili” de Bagdá

No Brasil, o carro ficou conhecido como Passat iraquiano ou Passat Iraque. No Iraque, segundo o Motonline, era chamado de Passat Brazili. Veterano, ele seguiu rodando por décadas: em 2003, quando a imprensa mostrou as imagens da invasão americana, o velho Passat apareceu como um dos carros mais comuns nas ruas, e muitos ainda trabalhavam como táxi.

Volkswagen Passat claro de quatro portas circulando numa avenida de Bagdá, no Iraque, em 2009
Um Passat de quatro portas numa avenida de Bagdá, em dezembro de 2009, na janela de outro veículo. Foto (recortada): ainudil / CC BY-SA 2.0

O Passat no Brasil: de onde veio o carro

O Passat foi o primeiro Volkswagen brasileiro com motor dianteiro e refrigerado a água, uma ruptura com a era do ar que o Fusca havia inaugurado. Segundo a Vrum, o carro chegou aqui em versão de duas portas, com motor de 1,5 litro e 65 cv e velocidade máxima de 150 km/h, e a carroceria de quatro portas veio no ano seguinte. Ele foi a base de um sucesso de exportação, e o caso do Iraque mostra que o Passat conseguiu ir muito além das ruas brasileiras.

Volkswagen Passat 1.6 LSE Liftback 1989 prata de quatro portas, parado sob uma árvore
Um Passat 1.6 LSE Liftback de 1989, fotografado no Chile. É um exemplar de linha da época, não necessariamente um carro de exportação para o Iraque. Foto: order_242 / CC BY-SA 2.0

Como identificar um Passat Iraque hoje

O apelido Passat Iraque virou rótulo entre colecionadores, e por isso vale cautela na hora de comprar. Os traços que mais ajudam são os da lista acima: quatro portas, painel completo com voltímetro e manômetro de óleo, ar-condicionado, bancos Recaro e a combinação de cores e forração em veludo vinho. Como todo clássico, a conferência de documentos e de peças originais deve vir antes do preço. Para saber mais sobre curiosidades parecidas, veja a categoria Curiosidades e Cultura Automotiva.

Perguntas frequentes sobre o Passat Iraque

O que foi o Passat Iraque?

Foi o Passat de quatro portas, bem equipado, que a Volkswagen do Brasil exportou para o Iraque entre 1983 e 1988, num acordo com a Petrobras e o governo iraquiano que usava petróleo como pagamento.

Quantos Passat foram para o Iraque?

As fontes falam em cerca de 170 mil unidades, entre 1983 e 1988.

Que motor tinha o Passat Iraque?

O 1.6 MD-270 a gasolina, mais antigo que o AP usado nos Passat vendidos no Brasil, com câmbio de quatro marchas. A ideia era baratear a manutenção.

Dava para comprar um Passat Iraque no Brasil?

Sim. Com a queda das exportações, a partir de 1986, a Volkswagen vendeu no mercado brasileiro o excedente de produção, e esses carros apareceram nas ruas, a maioria entre 1986 e 1987.

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Fontes consultadas

As fotos deste artigo vêm do Wikimedia Commons, com licenças livres (CC BY e CC BY-SA); os autores e as páginas de origem estão indicados em cada legenda. Foto de destaque: André Grigorevski / CC BY 4.0.

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João Paulo Rausis Pereira

Apaixonado por carros antigos desde sempre, criei o Farol Redondo pra compartilhar histórias, curiosidades e tudo que envolve o universo do antigomobilismo. Aqui, cada carro tem alma — e cada post é um jeito de manter essa paixão rodando.

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