Feche os olhos e pense num carro antigo. Muito provavelmente, a primeira imagem que aparece é a de dois olhos redondos e brilhantes na frente do capô. Fusca, Opala, Corcel, Kombi, Rural, Aero Willys: durante décadas, praticamente todo carro que rodava no Brasil olhava para a estrada através de faróis redondos. Não por acaso, este site se chama Farol Redondo.
Mas por que eles eram assim? Foi moda, tradição ou havia alguma razão técnica? A resposta mistura física, indústria e, principalmente, uma lei americana que moldou o desenho dos carros do mundo inteiro por mais de quarenta anos.

A física explica o começo
Um farol de carro antigo é, no fundo, uma lâmpada na frente de um espelho curvo. Esse espelho, chamado refletor, tem formato de parábola: a luz que sai da lâmpada bate na superfície e é jogada para a frente num feixe concentrado, em vez de se espalhar para todos os lados. E o formato natural de um refletor parabólico é justamente o redondo, simétrico em volta da lâmpada. Fazer um farol circular era a maneira mais simples e eficiente de aproveitar a luz das lâmpadas incandescentes da época.
Os primeiros faróis elétricos apareceram no fim do século 19 e, nas primeiras décadas do século 20, foram substituindo os antigos faróis a acetileno. Redondos desde o início, eles ficavam montados sobre os para-lamas, como pequenos holofotes. Com o tempo, foram sendo incorporados à carroceria, mas o formato continuou o mesmo.
A lei americana de 1940 e o farol selado
O grande responsável pela era dos faróis redondos, porém, foi uma padronização feita nos Estados Unidos. Em 1940, um consórcio de administradores estaduais de trânsito definiu que os carros vendidos no país teriam dois faróis redondos de 7 polegadas de diâmetro (cerca de 178 mm), do tipo sealed beam, ou “farol selado”. Durante 17 anos, esse foi o único sistema permitido.
No farol selado, lente, refletor e filamento formam uma peça única e fechada. Não existe lâmpada para trocar: quando queima, troca-se o farol inteiro. A vantagem era a padronização. Qualquer posto ou loja de peças tinha o farol certo na prateleira, e o refletor, lacrado, não perdia o brilho com poeira e umidade. A desvantagem era que os fabricantes ficavam presos a um único formato.
Em 1957, a lei passou a aceitar também quatro faróis redondos menores, de 5¾ polegadas, dois de cada lado. No começo, só alguns estados permitiam; em 1958, todos já aceitavam. Foi daí que nasceu a moda dos “quatro olhos” que marcou tantos carros americanos e, depois, alguns brasileiros.
Por que o mundo inteiro adotou os faróis redondos
Os Estados Unidos eram o maior mercado de automóveis do planeta. Quem quisesse vender carros lá precisava usar faróis redondos selados, e para a indústria era mais barato manter o mesmo desenho para todos os mercados. Além disso, países como Grã-Bretanha, Austrália, Japão e Suécia adotaram em larga escala o farol de 7 polegadas, mesmo sem obrigação legal. As fábricas instaladas no Brasil a partir dos anos 1950, com projetos vindos de Alemanha, Estados Unidos e França, trouxeram esse visual junto. Por isso Fusca, Kombi, Opala, Corcel, Chevette e tantos outros nasceram com faróis redondos.

A Europa foi por outro caminho
Na Europa continental, não havia exigência de tamanho nem de formato. Isso abriu espaço para a criatividade. Em 1960, dois fabricantes de faróis lançaram os primeiros modelos retangulares: a alemã Hella, para o Ford Taunus 17M, e a francesa Cibié, para o Citroën Ami 6. Os europeus também saíram na frente com as lâmpadas halógenas, mais brilhantes: a H1 surgiu em 1962, e a H4, de dois filamentos (luz baixa e alta na mesma lâmpada), apareceu em 1971.
A França tinha até uma particularidade curiosa: por lei, de 1937 até o fim de 1992, os carros registrados no país deviam usar faróis de luz amarela.

Os anos 1970 e a chegada dos retangulares
Nos Estados Unidos, a virada veio em 1974, quando a norma federal de iluminação foi alterada para permitir faróis selados retangulares. Eles começaram a aparecer nos carros do ano-modelo 1975 e se espalharam tão depressa que, em 1979, poucos modelos americanos ainda usavam faróis redondos. Mesmo assim, continuavam sendo faróis selados, de tamanho padronizado.
No Brasil, a mudança acompanhou a renovação dos modelos. O Corcel, que tinha faróis redondos na primeira geração, ganhou faróis retangulares com o Corcel II, no fim de 1977. O Opala adotou faróis retangulares na reestilização da linha 1980. Nos anos 1980, os faróis redondos já eram coisa de carro “antigo”.


1984: o fim da obrigação
A liberdade total chegou só nos anos 1980. Em 1981, a Ford pediu às autoridades americanas que permitissem faróis com lâmpada substituível, formatos livres e lentes de plástico aerodinâmicas. A regra mudou em 1983, e o primeiro carro a aproveitar a novidade foi o Lincoln Mark VII 1984, o primeiro carro vendido nos Estados Unidos desde 1939 com faróis de lâmpada trocável. A partir daí, os faróis passaram a acompanhar o desenho da carroceria, e o farol redondo virou escolha de estilo, não mais imposição.

Linha do tempo dos faróis de carro
- 1940: os Estados Unidos padronizam dois faróis redondos selados (sealed beam) de 7 polegadas
- 1957 e 1958: os quatro faróis redondos de 5¾ polegadas são liberados, primeiro em alguns estados e depois em todos
- 1960: surgem na Europa os primeiros faróis retangulares, no Ford Taunus 17M e no Citroën Ami 6
- 1962: chega a lâmpada halógena H1
- 1971: aparece a halógena H4, com luz baixa e alta na mesma lâmpada
- 1974 e 1975: os Estados Unidos liberam os faróis selados retangulares
- 1977 e 1980: Corcel II e Opala reestilizado trazem faróis retangulares ao Brasil
- 1983 e 1984: cai a exigência do sealed beam nos EUA, e o Lincoln Mark VII estreia os faróis aerodinâmicos
- 2013: a Kombi sai de linha no Brasil ainda com faróis redondos
O redondo que nunca saiu de moda
Curiosamente, alguns carros brasileiros nunca abandonaram os faróis redondos. O Fusca se despediu em 1996 do mesmo jeito que nasceu, e a Kombi chegou ao fim da produção, em dezembro de 2013, com os mesmos dois faróis circulares de sempre. Hoje, carros de visual retrô recorrem ao farol redondo justamente para despertar a nostalgia que ele carrega.

Para quem tem um antigo, fica a dica: muitos donos trocam os faróis de época por blocos ópticos do mesmo formato com lâmpada halógena, que iluminam mais. Funciona, mas quem busca originalidade, seja para concurso ou para a placa preta, deve guardar as peças originais ou procurar faróis do tipo correto para o ano do carro. O mesmo cuidado vale para outros acessórios de época, como mostramos no guia de retrovisores clássicos para Fusca.
E você, prefere os faróis redondos ou os retangulares dos anos 1980? Conta pra gente nos comentários do nosso canal no YouTube.
Fontes consultadas
- Wikipedia: Headlamp
- Wikipedia: sealed beam e refletores parabólicos
- Wikipedia: norma federal americana FMVSS 108
- Wikipedia: lâmpada H1
- Lexicar Brasil: Ford Corcel e Corcel II
Todas as fotos deste artigo têm licença livre (Creative Commons ou domínio público) e foram obtidas no Wikimedia Commons; os autores e licenças estão indicados em cada legenda. Foto de destaque (Opala 1971): Renzo Maia / CC BY 3.0.

