Ford Corcel GT: o esportivo da família Corcel

Ford Corcel GT 1974 branco com capô preto fosco e faróis de milha retangulares na grade

No fim dos anos 1960, quem passava por um Corcel GT parado na rua dificilmente seguia em frente sem virar o pescoço. As faixas pretas atravessando o capô, os faróis de milha no para-choque e aquele ronco um pouco mais encorpado diziam que aquele não era o Corcel comportado da família. Era o mesmo carro econômico e confiável que a Ford tinha acabado de lançar, mas com roupa de corrida e um motor com mais fôlego.

Neste artigo, o Farol Redondo conta a história do Corcel GT: de onde ele veio, o que tinha de diferente, como evoluiu até virar GT XP e o que aconteceu com ele quando chegou o Corcel II.

Um Ford com coração de Renault

Para entender o GT, é preciso voltar um pouco. O Corcel nasceu de um projeto da Willys-Overland do Brasil chamado Projeto M, de “médio”, desenvolvido em parceria com a Renault e aparentado do Renault 12 francês. Quando a Ford comprou a Willys, em 1967, herdou o projeto praticamente pronto. A carroceria foi desenhada aqui, pelo departamento de estilo da Willys, enquanto a mecânica vinha da matriz francesa: motor de quatro cilindros de 1.289 cm³ derivado do Renault Cléon, tração dianteira e suspensão independente nas quatro rodas.

O sedã de quatro portas foi apresentado no Salão do Automóvel de 1968 e virou sucesso imediato. No começo de 1969 veio o cupê de duas portas, de linhas mais leves, e no mesmo ano o Corcel ganhou o título de Carro do Ano da revista Autoesporte. Faltava só uma coisa para completar a família: uma versão que agradasse aos jovens que sonhavam com carros esportivos, mas não tinham dinheiro para um importado.

Ford Corcel recém-lançado exposto num palco giratório na feira de Sorocaba em 1969, foto preto e branco
O recém-lançado Corcel em exposição numa feira agropecuária e industrial de Sorocaba (SP), em 1969. Foto (recortada): Arquivo Público do Estado de São Paulo / Domínio público

1969: nasce o Corcel GT

O GT chegou ainda em 1969, sempre com carroceria cupê. Visualmente, era impossível confundir: faixas pretas no capô e nas laterais, teto revestido de vinil, rodas de aço exclusivas, faróis auxiliares redondos à frente da grade e o capô pintado de preto fosco com uma falsa tomada de ar. Por dentro, o motorista ganhava volante esportivo e instrumentos extras, com conta-giros, amperímetro e manômetro de óleo, coisa rara num carro nacional daquele porte.

Debaixo do capô, o motor continuava sendo o 1.3, mas mexido. A Ford trocou o carburador simples por um Solex de corpo duplo, redimensionou coletores e válvulas, rebaixou o cabeçote e adotou um novo comando. A potência bruta subiu de 68 para 80 cv, e o torque também cresceu um pouco. A velocidade máxima ficava na casa dos 140 km/h, alguns quilômetros por hora acima do Corcel comum. Não era um foguete, e ninguém esperava que fosse: o charme estava em ter um carro de cara esportiva, freio a disco na dianteira e mecânica tão econômica quanto a do carro da família.

Anúncio de época da Ford-Willys do Corcel GT vermelho com capô preto fosco, tomada de ar e quatro faróis redondos, com o título O quente
Anúncio de época do Corcel GT da primeira fase, com o capô preto fosco, a tomada de ar e os faróis auxiliares redondos ao lado dos faróis principais. Anúncio: Ford-Willys (reprodução), via Flickr Vibriobenz

GT XP: mais motor e mais estilo

No início dos anos 1970, o GT recebeu a sua evolução mais famosa. Segundo a enciclopédia Lexicar Brasil, foi em maio de 1971 que ele passou a se chamar GT XP; outras publicações situam a novidade em 1972. A grande mudança estava no motor: o diâmetro dos cilindros aumentou, a cilindrada foi para 1.372 cm³ e, mantido o carburador de corpo duplo, a potência bruta chegou a 85 cv. Com isso, o Corcel esportivo passou a fazer de 0 a 100 km/h em cerca de 17 segundos e a beirar os 145 km/h de máxima.

O visual também foi revisto. O capô preto ganhou uma entrada de ar, os faróis de milha passaram para dentro da grade, as faixas pretas correram a lateral inteira do carro e os instrumentos adicionais foram para um console central, ao alcance dos olhos do motorista. O significado de XP rende discussão até hoje entre os fãs: há quem diga “extra performance” e há quem prefira “extra power”. Seja qual for, o recado era o mesmo.

Painel e volante esportivo de três raios de um Ford Corcel GT 1973, com instrumentos no console
Volante esportivo de três raios e instrumentos extras no console: o posto de comando de um Corcel GT 1973. Foto: Py4nf / Domínio público

Em 1971 a Ford chegou a mostrar ainda o Corcel Cobra, um conceito baseado no GT que nunca entrou em produção. Ficou como curiosidade de salão, mas mostra como a marca enxergava o potencial esportivo do seu cupê médio.

1973: cara nova e motor 1.4 para todos

Para a linha 1973, o Corcel inteiro passou por uma reestilização. A frente ficou mais quadrada e musculosa, com grade nova e os faróis emoldurados de outra forma, e as lanternas traseiras cresceram e passaram a incorporar a luz de ré. O motor 1.4, até então privilégio do GT, foi estendido a toda a linha, mas com carburador simples e potência menor. O carburador de corpo duplo continuou sendo exclusividade do esportivo.

No GT dessa fase, os faróis de milha ficaram menores e retangulares, encaixados na grade, e algumas unidades exibiam o capô inteiro pintado de preto fosco. O conjunto agradou: naquele ano o Corcel voltou a ser eleito Carro do Ano pela Autoesporte, a segunda vez em cinco anos.

Ford Corcel GT 1974 branco com capô preto fosco e faróis de milha retangulares na grade
Corcel GT 1974 com capô preto fosco e os pequenos faróis de milha retangulares na grade. Foto: Renzo Maia / CC BY 3.0

Lado a lado com um Corcel comum do mesmo ano, dá para perceber como a Ford fazia o GT parecer outro carro usando quase só pintura, faixas e acessórios. A carroceria era a mesma do cupê Luxo, por exemplo, que tinha frisos cromados e um ar bem mais sóbrio.

Ford Corcel cupê Luxo 1973 amarelo com a frente reestilizada
Um Corcel cupê Luxo 1973, primeiro ano da frente reestilizada: mesma carroceria do GT, sem as faixas e os faróis auxiliares. Foto: JasonVogel / CC BY-SA 3.0

Nas pistas e nas ruas

Leve, de tração dianteira e com boa estabilidade, o Corcel GT também apareceu em competições de carros de turismo no Brasil, em circuitos como Tarumã e Interlagos. Não tinha fôlego para acompanhar os grandes motores de seis e oito cilindros da época, como os do Opala e do Maverick, mas brigava bem com os carros da sua faixa e ajudou a construir a imagem esportiva da linha.

Nas ruas, o papel dele era outro. O GT era o carro do rapaz que queria impressionar na porta do colégio, do recém-formado que trocava o carro do pai por algo com mais personalidade e do motorista que gostava de esticar as marchas na estrada. Ele chegou antes de concorrentes como o Super-Fuscão 1600S, o famoso Bizorrão da Volkswagen, e ajudou a abrir caminho para a onda de esportivos de motor pequeno que marcou os anos 1970 no Brasil.

Ford Corcel GT 1973 branco com faixas pretas no capô e na lateral
Um Corcel GT 1973 com as faixas pretas no capô e na lateral e o emblema GT no para-lama: o visual que fazia sucesso nas ruas. Foto: Py4nf / Domínio público

O GT continua no Corcel II

Em novembro de 1977 chegou o Corcel II, com carroceria totalmente nova, linhas retas e faróis retangulares. O sedã de quatro portas saiu de cena e a linha passou a ter só o cupê e a perua Belina. O nome GT sobreviveu, aplicado apenas ao cupê, ao lado das versões básica, L e LDO. Em 1979 o GT ganhou câmbio de cinco marchas; na linha 1980 vieram voltímetro e um friso vermelho na lateral. No mesmo período apareceu o motor 1.6, com carburador de corpo duplo, que deu ao Corcel mais disposição.

Mas, para os colecionadores, o Corcel GT “de verdade” continua sendo o da primeira geração, com faixas, capô fosco e faróis auxiliares. A Ford manteve o Corcel em produção até julho de 1986, depois de mais de um milhão de unidades somando todas as versões, e os GTs originais da primeira fase hoje estão entre os Corcéis mais procurados.

Ford Corcel II GT 1980 prata com friso lateral vermelho, em foto de divulgação da época diante de um muro escrito Corcel II GT
O Corcel II GT 1980 em foto de divulgação da época: linhas retas, faróis retangulares, faróis de milha no para-choque e o friso vermelho na lateral. Foto: Ford (reprodução), via Flickr VM7

Dicas para quem quer um Corcel GT

Por ser uma versão de visual marcante e mecânica parecida com a dos Corcéis comuns, o GT é um carro que exige atenção na hora da compra. Muitos Corcéis simples ganharam faixas e emblemas ao longo dos anos. Antes de fechar negócio, vale conferir a documentação, procurar os detalhes de painel e console da época, checar o carburador de corpo duplo e, se possível, consultar um clube do modelo ou um especialista em originalidade. Um GT legítimo e bem restaurado vale bem mais do que uma imitação, por mais bonita que ela seja.

O Corcel GT não era o carro mais rápido do Brasil, nem pretendia ser. Foi o esportivo possível para muita gente, com a confiabilidade de um carro de família e a pose de um cupê de corrida. E é exatamente essa mistura que faz qualquer GT com faixas pretas parar o trânsito num encontro de antigos até hoje.

Ficha técnica do Corcel GT

  • Lançamento: 1969, só com carroceria cupê de duas portas
  • Motor do GT: quatro cilindros em linha, 1.289 cm³, carburador Solex de corpo duplo, 80 cv brutos
  • Motor do GT XP: 1.372 cm³, carburador de corpo duplo, 85 cv brutos
  • Tração: dianteira, com freio a disco nas rodas da frente
  • Velocidade máxima: cerca de 141 km/h (GT) e 145 km/h (GT XP)
  • Aceleração de 0 a 100 km/h: cerca de 17 segundos (GT XP)
  • Produção: as fontes não trazem o número de GTs; somando todas as versões, o Corcel passou de 1 milhão de unidades entre 1968 e 1986

Perguntas frequentes sobre o Corcel GT

Quando foi lançado o Corcel GT?

O Corcel GT chegou em 1969, poucos meses depois do cupê, como a versão esportiva da linha. Em 1971 ele foi renovado e virou GT XP, com motor maior.

Qual era a potência do Corcel GT?

O primeiro GT tinha 80 cv brutos, contra 68 cv do Corcel comum. O GT XP, com motor de 1.372 cm³, chegou a 85 cv brutos.

O que significa XP no Corcel GT XP?

As fontes não concordam. A versão mais citada é “extra performance”, mas também aparece “extra power”. Em qualquer caso, a sigla indicava o motor mais forte da linha.

Existiu Corcel II GT?

Sim. Quando o Corcel II foi lançado, em novembro de 1977, o GT continuou na linha, só com carroceria cupê. Em 1979 ele ganhou câmbio de cinco marchas.

Gostou desta história? Veja também por que os carros antigos tinham faróis redondos, como o Corcel da primeira geração, e outras histórias em Modelos e Histórias.

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Fontes consultadas

As fotos deste artigo vêm do Wikimedia Commons, com licença livre, e o anúncio do GT da primeira fase e a foto do Corcel II GT são materiais de divulgação da época reproduzidos do Flickr; os autores e fontes estão indicados em cada legenda. A foto de 1969 pertence ao acervo do Arquivo Público do Estado de São Paulo. Foto de destaque (Corcel GT 1974): Renzo Maia / CC BY 3.0.

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João Paulo Rausis Pereira

Apaixonado por carros antigos desde sempre, criei o Farol Redondo pra compartilhar histórias, curiosidades e tudo que envolve o universo do antigomobilismo. Aqui, cada carro tem alma — e cada post é um jeito de manter essa paixão rodando.

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