Pergunte a qualquer brasileiro com mais de trinta anos e ele vai ter uma história para contar. O primeiro carro do pai. A viagem para a praia com cinco pessoas apertadas e a bagagem amarrada no teto. O empurrão numa manhã fria, com alguém gritando “solta a embreagem!”. Poucos objetos atravessaram tantas gerações quanto o Fusca, e poucos carros no mundo foram tão adotados por um país que nem era o seu de origem.
Neste artigo, o Farol Redondo conta a trajetória completa do Fusca no Brasil: da chegada da Volkswagen em um galpão alugado em São Paulo até a volta inesperada nos anos 1990, passando pelo recorde de produção, pelas versões mais desejadas e pelos apelidos que o povo inventou.
Assista: a história do Fusca em vídeo
O carro do povo nasceu na Alemanha
A história começa nos anos 1930, na Alemanha. O engenheiro Ferdinand Porsche recebeu a missão de criar um automóvel barato, robusto e capaz de levar uma família inteira com economia. O resultado ganhou um nome que já dizia tudo: Volkswagen, ou “carro do povo”.
A receita era incomum para a época. Motor traseiro, refrigerado a ar, carroceria arredondada e uma mecânica pensada para durar e ser consertada em qualquer lugar. A produção em grande escala só deslanchou depois da Segunda Guerra Mundial, e a partir daí o sedã de formas curvas passou a ser exportado para dezenas de países. Em cada um deles ganhou um apelido carinhoso: Beetle, Käfer, Coccinelle, Vocho. No Brasil, viraria Fusca.

Do galpão no Ipiranga à Via Anchieta
A Volkswagen começou a operar no Brasil em março de 1953, em um galpão alugado na Rua do Manifesto, no bairro do Ipiranga, em São Paulo. Nos primeiros anos, a operação era de montagem: os carros chegavam da Alemanha em partes e eram montados aqui.
O grande passo veio com a construção da fábrica de São Bernardo do Campo, às margens da Via Anchieta, iniciada em 1956. Foi a primeira fábrica da marca fora da Alemanha. A Kombi chegou antes: a primeira unidade nacional saiu da linha em setembro de 1957. O sedã que o povo já chamava de Fusca entrou em produção nacional em janeiro de 1959, e é por isso que o dia 20 de janeiro é celebrado como o Dia Nacional do Fusca. A inauguração oficial da fábrica aconteceu em novembro daquele ano.

A fábrica Anchieta segue em funcionamento até hoje e já ultrapassou a marca de 15 milhões de veículos produzidos. Mas foi o Fusca que transformou aquele terreno em um marco da indústria automobilística brasileira.

Simples de propósito
O primeiro Fusca nacional tinha motor de 1200 cilindradas e cerca de 36 cavalos. Parece pouco, e era. Mas o segredo do carro nunca esteve na potência. Sem radiador, o motor refrigerado a ar não fervia no trânsito nem congelava no frio. A suspensão aguentava estrada de terra, buraco e lombada. E a mecânica era tão acessível que muito dono aprendeu a regular o carburador e trocar o platinado na calçada de casa.
Num país de dimensões continentais, com estradas precárias e oficinas espalhadas, essa simplicidade valia ouro. O Fusca era o carro que chegava. E, quando não chegava, quase sempre dava para resolver com uma chave de fenda, um pedaço de arame e boa vontade.

Fusca, Fuca, Fusquinha: um nome que veio das ruas
Um detalhe que surpreende muita gente: durante boa parte da sua vida, o Fusca não se chamava Fusca. Nos documentos e nos catálogos da fábrica, ele era o Volkswagen Sedan, ou simplesmente VW 1200, 1300 e assim por diante. O apelido nasceu na boca do povo, provavelmente da pronúncia da própria palavra Volkswagen, e virou Fuca, Fusquinha, Fuscão.
A Volkswagen só se rendeu ao nome popular nos anos 1980, quando “Fusca” passou a aparecer oficialmente no material da marca. Àquela altura, ninguém mais lembrava que um dia ele tinha tido outro nome.

Mais fôlego: 1300, Fuscão e Bizorrão
Com o passar dos anos, o Fusca foi ganhando motores maiores sem abrir mão da essência. Em 1967 chegou o 1300, que se tornaria uma das versões mais populares. Em 1970 veio o 1500, logo apelidado de Fuscão, com mais torque e detalhes de acabamento que o diferenciavam do irmão menor.
O mais cobiçado pelos colecionadores, porém, é o Super-Fuscão 1600S. Lançado em 1974, ele trazia motor 1600 com dupla carburação, herdado da Brasília, e uma proposta assumidamente esportiva. A própria Volkswagen o chamava de Bizorrão nas propagandas, brincando com a pronúncia alemã de “besourão”. Foi produzido por pouco tempo, até 1975, em cerca de 5.500 unidades, e hoje exemplares originais são raridade em encontros. Na mesma época, a Ford disputava o público jovem com outro esportivo de motor pequeno, o Ford Corcel GT.

1974, o ano em que o Brasil andou de Fusca
Se existe um ano que resume o domínio do Fusca, é 1974. Naquele ano, a fábrica de São Bernardo do Campo produziu 239.393 unidades, o recorde anual do modelo no país. O Fusca liderou o mercado brasileiro por mais de duas décadas e estava em todo lugar: na garagem da classe média, no ponto de táxi, na frota de empresas, nas fazendas e nas pequenas cidades do interior.
Era o carro do primeiro emprego, da autoescola, do recém-casado e do aposentado. Para muita família, comprar um Fusca zero era a prova concreta de que a vida tinha melhorado.

Nas pistas e na terra
Leve, barato e fácil de preparar, o Fusca também virou base para carros de competição. Muitos pilotos brasileiros deram os primeiros passos no automobilismo ao volante de um Fusca envenenado, em provas de rua, autódromos e campeonatos regionais. Em exposições de carros antigos, Fuscas de corrida com pintura de época costumam juntar uma pequena multidão em volta.

Na terra, então, ele jogava em casa. Com o peso do motor apoiado sobre as rodas traseiras, que são as de tração, o Fusca tem uma aderência surpreendente em lama e cascalho. Não por acaso, até hoje ele é presença garantida em provas de velocidade na terra pelo interior do país.

A despedida de 1986
Nenhum reinado dura para sempre. A partir dos anos 1980, o mercado brasileiro passou a receber carros mais modernos, com motor dianteiro refrigerado a água, mais espaço interno e melhor desempenho. O próprio Gol, da Volkswagen, nasceu para ocupar esse lugar. As vendas do Fusca caíram, e em 1986 a fábrica encerrou a produção, com uma série especial de despedida.
Até ali, mais de três milhões de Fuscas tinham sido produzidos no Brasil. Parecia o fim definitivo de uma era.

A volta inesperada: o Fusca Itamar
Só que a história ganhou um capítulo que ninguém esperava. Em 1993, a pedido do então presidente Itamar Franco, a Volkswagen retomou a produção do Fusca. A ideia era oferecer um carro simples e acessível, aproveitando os incentivos fiscais para modelos populares. A linha foi reinaugurada em agosto daquele ano, em uma cerimônia que fez questão de lembrar o lançamento original de 1959.
O novo Fusca, que o público logo batizou de Fusca Itamar, trazia motor 1600 e pequenas atualizações de segurança e acabamento. O próprio presidente tinha um exemplar, hoje preservado. O retorno, porém, durou pouco: a produção terminou de vez em 1996, com uma última série especial.

Por que o Fusca ainda emociona
Três décadas depois do último exemplar sair da fábrica, o Fusca continua nas ruas, nos encontros de antigos e nas garagens de colecionadores. Exemplares bem conservados, sobretudo das séries especiais e das versões raras, chegam a valer mais do que muito carro zero-quilômetro. E não é só nostalgia: peças ainda são fáceis de encontrar, a mecânica continua acessível e qualquer Fusca na rua arranca sorriso, buzinada e aquela frase inevitável: “meu pai teve um igualzinho”.

O Fusca não foi o carro mais rápido, nem o mais confortável, nem o mais bonito da sua época. Foi algo mais raro: o carro que coube no sonho e no bolso de milhões de brasileiros. E é por isso que, quando um farol redondo aparece na esquina, a gente ainda vira a cabeça para olhar. (Aliás, você sabe por que os carros antigos tinham faróis redondos?)
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Fontes consultadas
- Revista Carro: Dia Nacional do Fusca
- Autoentusiastas: a inauguração da fábrica Anchieta
- Autoentusiastas: Super-Fuscão 1600S, o Bizorrão
- Vrum: relembre a história do modelo
- Autoentusiastas: o último Fusca brasileiro
Todas as fotos deste artigo têm licença livre (Creative Commons ou domínio público) e foram obtidas no Wikimedia Commons; os autores e licenças estão indicados em cada legenda. Foto de destaque (Fusca 1300 1972): Toshinoce / CC BY-SA 4.0.



