Fusca: a história do carro que colocou o Brasil sobre rodas

Fusca 1300 1972 amarelo com rodas cromadas estacionado

Pergunte a qualquer brasileiro com mais de trinta anos e ele vai ter uma história para contar. O primeiro carro do pai. A viagem para a praia com cinco pessoas apertadas e a bagagem amarrada no teto. O empurrão numa manhã fria, com alguém gritando “solta a embreagem!”. Poucos objetos atravessaram tantas gerações quanto o Fusca, e poucos carros no mundo foram tão adotados por um país que nem era o seu de origem.

Neste artigo, o Farol Redondo conta a trajetória completa do Fusca no Brasil: da chegada da Volkswagen em um galpão alugado em São Paulo até a volta inesperada nos anos 1990, passando pelo recorde de produção, pelas versões mais desejadas e pelos apelidos que o povo inventou.

Assista: a história do Fusca em vídeo

O carro do povo nasceu na Alemanha

A história começa nos anos 1930, na Alemanha. O engenheiro Ferdinand Porsche recebeu a missão de criar um automóvel barato, robusto e capaz de levar uma família inteira com economia. O resultado ganhou um nome que já dizia tudo: Volkswagen, ou “carro do povo”.

A receita era incomum para a época. Motor traseiro, refrigerado a ar, carroceria arredondada e uma mecânica pensada para durar e ser consertada em qualquer lugar. A produção em grande escala só deslanchou depois da Segunda Guerra Mundial, e a partir daí o sedã de formas curvas passou a ser exportado para dezenas de países. Em cada um deles ganhou um apelido carinhoso: Beetle, Käfer, Coccinelle, Vocho. No Brasil, viraria Fusca.

Volkswagen Sedan antigo em foto preto e branco numa estrada de terra
O Volkswagen Sedan dos primeiros anos, com o vidro traseiro dividido. Foto: Geoff Charles / CC BY-SA 4.0

Do galpão no Ipiranga à Via Anchieta

A Volkswagen começou a operar no Brasil em março de 1953, em um galpão alugado na Rua do Manifesto, no bairro do Ipiranga, em São Paulo. Nos primeiros anos, a operação era de montagem: os carros chegavam da Alemanha em partes e eram montados aqui.

O grande passo veio com a construção da fábrica de São Bernardo do Campo, às margens da Via Anchieta, iniciada em 1956. Foi a primeira fábrica da marca fora da Alemanha. A Kombi chegou antes: a primeira unidade nacional saiu da linha em setembro de 1957. O sedã que o povo já chamava de Fusca entrou em produção nacional em janeiro de 1959, e é por isso que o dia 20 de janeiro é celebrado como o Dia Nacional do Fusca. A inauguração oficial da fábrica aconteceu em novembro daquele ano.

Fusca conversível 1960 em exposição de museu
Um Volkswagen 1960, da época em que a produção nacional dava os primeiros passos. Foto: Bruno Kussler Marques / CC BY 2.0

A fábrica Anchieta segue em funcionamento até hoje e já ultrapassou a marca de 15 milhões de veículos produzidos. Mas foi o Fusca que transformou aquele terreno em um marco da indústria automobilística brasileira.

Linha de montagem da fábrica Anchieta da Volkswagen em São Bernardo do Campo
A fábrica Anchieta, em São Bernardo do Campo, nos dias de hoje. Foto: Vice-Presidência da República / CC BY 2.0

Simples de propósito

O primeiro Fusca nacional tinha motor de 1200 cilindradas e cerca de 36 cavalos. Parece pouco, e era. Mas o segredo do carro nunca esteve na potência. Sem radiador, o motor refrigerado a ar não fervia no trânsito nem congelava no frio. A suspensão aguentava estrada de terra, buraco e lombada. E a mecânica era tão acessível que muito dono aprendeu a regular o carburador e trocar o platinado na calçada de casa.

Num país de dimensões continentais, com estradas precárias e oficinas espalhadas, essa simplicidade valia ouro. O Fusca era o carro que chegava. E, quando não chegava, quase sempre dava para resolver com uma chave de fenda, um pedaço de arame e boa vontade.

Fusca verde antigo com para-choque cromado estacionado na rua
Para-choques cromados, frisos e faróis redondos: o desenho que atravessou décadas quase sem mudanças. Foto: Carlos A. P. Campani / CC BY-SA 3.0

Fusca, Fuca, Fusquinha: um nome que veio das ruas

Um detalhe que surpreende muita gente: durante boa parte da sua vida, o Fusca não se chamava Fusca. Nos documentos e nos catálogos da fábrica, ele era o Volkswagen Sedan, ou simplesmente VW 1200, 1300 e assim por diante. O apelido nasceu na boca do povo, provavelmente da pronúncia da própria palavra Volkswagen, e virou Fuca, Fusquinha, Fuscão.

A Volkswagen só se rendeu ao nome popular nos anos 1980, quando “Fusca” passou a aparecer oficialmente no material da marca. Àquela altura, ninguém mais lembrava que um dia ele tinha tido outro nome.

Fusca branco estacionado na Alameda Barão de Limeira, no centro de São Paulo
Um Fusca branco no centro de São Paulo: cena comum por mais de meio século. Foto: Daniel Steinman / CC BY-SA 4.0

Mais fôlego: 1300, Fuscão e Bizorrão

Com o passar dos anos, o Fusca foi ganhando motores maiores sem abrir mão da essência. Em 1967 chegou o 1300, que se tornaria uma das versões mais populares. Em 1970 veio o 1500, logo apelidado de Fuscão, com mais torque e detalhes de acabamento que o diferenciavam do irmão menor.

O mais cobiçado pelos colecionadores, porém, é o Super-Fuscão 1600S. Lançado em 1974, ele trazia motor 1600 com dupla carburação, herdado da Brasília, e uma proposta assumidamente esportiva. A própria Volkswagen o chamava de Bizorrão nas propagandas, brincando com a pronúncia alemã de “besourão”. Foi produzido por pouco tempo, até 1975, em cerca de 5.500 unidades, e hoje exemplares originais são raridade em encontros. Na mesma época, a Ford disputava o público jovem com outro esportivo de motor pequeno, o Ford Corcel GT.

Traseira de um Fusca 1300 1972 cor mostarda com lanternas e para-choque cromado
A traseira de um Fusca 1300 1972, com as grades de ventilação do motor na tampa. Foto: Toshinoce / CC BY-SA 4.0

1974, o ano em que o Brasil andou de Fusca

Se existe um ano que resume o domínio do Fusca, é 1974. Naquele ano, a fábrica de São Bernardo do Campo produziu 239.393 unidades, o recorde anual do modelo no país. O Fusca liderou o mercado brasileiro por mais de duas décadas e estava em todo lugar: na garagem da classe média, no ponto de táxi, na frota de empresas, nas fazendas e nas pequenas cidades do interior.

Era o carro do primeiro emprego, da autoescola, do recém-casado e do aposentado. Para muita família, comprar um Fusca zero era a prova concreta de que a vida tinha melhorado.

Fusca 1300 1969 vermelho numa estrada rural com gado e um cavaleiro ao fundo
Na cidade ou na roça, o Fusca era parte da paisagem brasileira. Foto: JasonVogel / CC BY-SA 3.0

Nas pistas e na terra

Leve, barato e fácil de preparar, o Fusca também virou base para carros de competição. Muitos pilotos brasileiros deram os primeiros passos no automobilismo ao volante de um Fusca envenenado, em provas de rua, autódromos e campeonatos regionais. Em exposições de carros antigos, Fuscas de corrida com pintura de época costumam juntar uma pequena multidão em volta.

Fusca de corrida 1967 laranja e branco com número 87 em exposição
Um Fusca de competição de 1967 preservado com a pintura de época. Foto: Morio / CC BY-SA 3.0

Na terra, então, ele jogava em casa. Com o peso do motor apoiado sobre as rodas traseiras, que são as de tração, o Fusca tem uma aderência surpreendente em lama e cascalho. Não por acaso, até hoje ele é presença garantida em provas de velocidade na terra pelo interior do país.

Fusca vermelho de competição número 82 acelerando numa pista de terra
Fusca preparado para corrida de terra: tração traseira e motor sobre o eixo motriz. Foto: Bernardo Bot 82 / CC BY-SA 4.0

A despedida de 1986

Nenhum reinado dura para sempre. A partir dos anos 1980, o mercado brasileiro passou a receber carros mais modernos, com motor dianteiro refrigerado a água, mais espaço interno e melhor desempenho. O próprio Gol, da Volkswagen, nasceu para ocupar esse lugar. As vendas do Fusca caíram, e em 1986 a fábrica encerrou a produção, com uma série especial de despedida.

Até ali, mais de três milhões de Fuscas tinham sido produzidos no Brasil. Parecia o fim definitivo de uma era.

Fusca desgastado e sem pintura parado sob uma árvore no Ceará
Muitos Fuscas ainda esperam por uma restauração pelo Brasil afora. Foto: Adrian Michael / CC BY 4.0

A volta inesperada: o Fusca Itamar

Só que a história ganhou um capítulo que ninguém esperava. Em 1993, a pedido do então presidente Itamar Franco, a Volkswagen retomou a produção do Fusca. A ideia era oferecer um carro simples e acessível, aproveitando os incentivos fiscais para modelos populares. A linha foi reinaugurada em agosto daquele ano, em uma cerimônia que fez questão de lembrar o lançamento original de 1959.

O novo Fusca, que o público logo batizou de Fusca Itamar, trazia motor 1600 e pequenas atualizações de segurança e acabamento. O próprio presidente tinha um exemplar, hoje preservado. O retorno, porém, durou pouco: a produção terminou de vez em 1996, com uma última série especial.

Fusca conversível 1993 azul-acinzentado que pertenceu a Itamar Franco, em exposição
O Fusca 1993 que pertenceu ao presidente Itamar Franco. Foto: G05ST / CC0

Por que o Fusca ainda emociona

Três décadas depois do último exemplar sair da fábrica, o Fusca continua nas ruas, nos encontros de antigos e nas garagens de colecionadores. Exemplares bem conservados, sobretudo das séries especiais e das versões raras, chegam a valer mais do que muito carro zero-quilômetro. E não é só nostalgia: peças ainda são fáceis de encontrar, a mecânica continua acessível e qualquer Fusca na rua arranca sorriso, buzinada e aquela frase inevitável: “meu pai teve um igualzinho”.

Fusca azul-claro estacionado numa rua residencial brasileira
Ainda hoje, é comum encontrar Fuscas rodando no dia a dia das cidades brasileiras. Foto: Rodrigo S. Maior / CC BY 4.0

O Fusca não foi o carro mais rápido, nem o mais confortável, nem o mais bonito da sua época. Foi algo mais raro: o carro que coube no sonho e no bolso de milhões de brasileiros. E é por isso que, quando um farol redondo aparece na esquina, a gente ainda vira a cabeça para olhar. (Aliás, você sabe por que os carros antigos tinham faróis redondos?)

E você, teve um Fusca ou tem uma história com ele? Conta pra gente nos comentários do nosso canal no YouTube.

Fontes consultadas

Todas as fotos deste artigo têm licença livre (Creative Commons ou domínio público) e foram obtidas no Wikimedia Commons; os autores e licenças estão indicados em cada legenda. Foto de destaque (Fusca 1300 1972): Toshinoce / CC BY-SA 4.0.

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João Paulo Rausis Pereira

Apaixonado por carros antigos desde sempre, criei o Farol Redondo pra compartilhar histórias, curiosidades e tudo que envolve o universo do antigomobilismo. Aqui, cada carro tem alma — e cada post é um jeito de manter essa paixão rodando.

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